2º HOLON: ECOVILLAGE COMMUNITY com rui vasques


o forum academia de sofia tem prazer de convidar a comunidade académica e envolvente para o 2º hólon... o tema será 'ECOVILLAGE COMMUNITY - LIVE WITH EARTH'...
contamos com a presença de rui vasques, autor do projecto e prémio de melhor aluno de curso ADE 2012...
a não perder mais uma sessão inspiradora...!!

http://greensavers.sapo.pt/2013/05/10/jovem-portugues-idealiza-cidade-ecologica-auto-suficiente-com-fotos/

Comentários

  1. Viva,

    gostaria de deixar aqui algumas dúvidas que me assolam quando penso nesta questão das eco-aldeias, na esperança de quem me possam ajudar a esclarecê-las.
    Tenho vivido desde há quantro anos, de forma intermitente, numa comunidade intencional, que se poderá também chamar eco-aldeia. Ao mesmo tempo tenho colaborado numa iniciativa de Transição que fica a 20kms sensivelmente desta comunidade. Estas experiências fazem-me reflectir no seguinte.
    1- De que forma as comunidades intencionais e as eco-aldeias (C/EA) podem contribuir para uma sociedade mais justa e fraterna?
    A minha resposta é que para poderem dar esse contributo deverão passar a encarnar caracteríticas que neste momento são secundarizadas. Claro que cada C/EA é um universo em si mesmo e há muitas diferenças entre cada uma mas...
    ISOLAMENTO
    ...parece-me uma característica muito difundida uma certa "endogamia", que é como quem diz um certo encerramento em si mesma. Há tristeza, desilusão e mesmo desconfiança, nas pessoas que compõem as C/EA, em relação à sociedade em geral e como tal uma tentação concretizada de isolamento. É fácil rodearmo-nos de pessoas que confirmam as nossas ideias, em vez de nos abrirmos e recebermos críticas, por vezes cáusticas, de pessoas de "fora", e sabermos ter em conta essas críticas para crescermos enquanto indivíduos e colectivos.
    ABSORÇÃO
    Por outro lado, a intensidade da vida numa eco-aldeia, em particular as emoções com que se tem que lidar diariamente, absorvem grande parte das energias das (pessoas) participantes, desde reuniões frequentes até processos de resolução de conflitos extenuantes. Se já não havia grande vontade de ligação com o mundo lá de "fora", feio e cinzento, com uma agenda assim preenchida, a pouca vontade restante é eliminada.
    FRAGMENTAÇÃO SOCIAL com ILUSÃO DE CONECTIVIDADE MUNDIAL
    Na sequência dos pontos anteriores decorre um potencial de fragmentação social, ou seja, as pessoas de cada C/EC estão absorvidas no seu projecto e pouco saem do mesmo. Desconhecem o que acontece nas povoações à volta, as crianças não vão à escola pública, muitas vezes nem sequer falam a língua do país em que habitam (pelo menos em Portugal), ignoram a realidade da crise económica e social actual. A prazo isto parece-me potenciador de conflitos, pois do desconhecido nasce a repulsa e o conflito (o desconhecimento entre "autóctones" e "entrangeiros", de fora do país ou da região).
    Por outro lado, os laços que existem são muitas vezes com pessoas também estrangeiras ou habitantes de outras eco-aldeias, seja da região, seja de outros locais do planeta. No primeiro caso, estes laços funcionam em geral também como trocas económicas paralelas ao sistema convencional (economia paralela). No segundo caso, estes laços só são possíveis devido ao telefone, à internet e ao avião. Se o telefone existe há muitas décadas, a internet e o avião (enquanto transporte de massas) são recentes (10, 15 anos) e assentam no sistema contra o qual as eco-aldeias se erguem, a sociedade industrializada. Assim, a maior parte da teia de relações de uma eco-aldeia arrisca-se a ser riscada do mapa no contexto de uma crise energética e social.

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  2. (continuação do comentário anterior)

    ESTADO SOCIAL (SAÚDE)
    De tudo o exposto, decorre que as eco-aldeias estimulam vivências à margem da sociedade. Se da economia paralela e informal decorre a precarização dos rendimentos e fundamentalmente a erosão das contribuições para o estado social, isto significa que coisas tão simples como o serviço nacional de saúde e a escola pública deixaram de existir tal qual os conhecemos. Eu e a minha companheira tivémos uma primeira criança em casa, na comunidade, mas a segunda foi num hospital público, pois não nos foi possível encontrar uma parteira (que além disso tem um custo incomportável para muitas bolsas). No hospital público tudo correu bem, sem que tivessemos que pagar um centavo. Graças ao estado social.
    ESTADO SOCIAL (EDUCAÇÃO)
    No que diz respeito à educação das crianças, quando esta se processa na própria comunidade, ao abrigo da educação doméstica, ensino livre alternativo, etc, verifica-se que a endogamia prossegue e aprofunda-se. As crianças apenas ouvem e vivenciam aquela realidade, não tendo a possibilidade que existe na escola pública de interagir com crianças de vários estratos (classes) sociais. Na escola pública, as crianças brincam umas com as outras, seja o filho do açougueiro com a filha do taxista, o filho da presidente da junta com o filho do médico cubano, a filha do imigrante de leste com o filho da professora, etc, num diálogo implícito que predispõe à interculturalidade, ao diálogo, à democracia.

    Para terminar este longo comentário, penso que o exposto reflecte já bastante bem os riscos das eco-aldeias para uma sociedade plural, democrática e justa. Para que isso não aconteça, há que acautelar que aquilo que expus acima é mitigado e transformado. As eco-aldeias deverão ser locais de inclusão, em que quem nelas habita utiliza a sua visão (crítica) da sociedade para transformar as comunidades alargadas onde se movimentam. Viver numa eco-aldeia é um fim mas também um meio. Para mostrar às outras pessoas uma outra forma de vida. Mas ao mesmo tempo quem vive nas eco-aldeias deverá usar a sua força colectiva para ajudar à transformação da sociedade em geral, por exemplo participando na escola pública e contribuindo para a adopção de novas pedagogias, por exemplo exigindo do SNS um tratamento mais digno, utilização de fármacos menos agressivos para o corpo humano e para a natureza, por exemplo participando na vida pública das povoações e contribuindo para que o poder local se abra e incentive a democracia participativa.

    Fica a reflexão e as dúvidas (embora pareça assertivo, são dúvidas que tenho), aguardo os comentários que vos ocorra por bem fazer.

    Cumprimentos

    Marcos Pais

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